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Soninha (ESPN Brasil)

Soninha Francine, uma grande jornalista formada na USP. Atualmente é jornalista esportivo na ESPN Brasil. Já trabalhou como VJ da MTV e teve um programa para jovens na TV Cultura.

1- Cara Soninha, como foi seu início nesta carreira?
Eu fiz um programa de futebol na MTV, de última hora. Eu fui escalada pra ser narradora do Rock & Gol porque era da "turma do futebol"lá na TV, e na emergência eles pensaram em mim. O Rock & Gol passou na época da Copa do Mundo e chamou a atenção das pessoas; eu fui convidada para participar de várias mesas redondas sobre a seleção brasileira, meio de brincadeira. Uma dessas mesas foi na ESPN; eles gostaram da minha participação, me chamaram outras vezes e depois de um tempo acabaram me contratando.

2- Você sonhava muito em ser jornalista esportiva?
Não. Eu sonhava em trabalhar com esporte. Quando eu estava no colégio, principalmente, eu queria ser atleta -- ou professora, treinadora, preparadora. Eu queria ter feito faculdade de Educação Física, mas depois eu tive de desistir (tive minha primeira filha dois meses depois de terminar o colegial...). Mas eu nunca pensei que iria trabalhar como jornalista esportiva.


3- Como todos sabem a ESPN é uma dos maiores canais de esporte de mundo, como se sente trabalhando nela?
É uma honra, sinceramente. Não é nem pelo que a ESPN representa no mundo, mas pelo quanto eu gosto da ESPN Brasil. Eu era assinante e fã da ESPN, fiquei surpresa com o convite pra participar da mesa redonda, lá em 98, e não acreditei quando o Trajano me ofereceu um emprego. Sou fã do Trajano e eu sei que tenho muita sorte de trabalhar num lugar legal como a ESPN Brasil.


4- Qual sua função especifica na ESPN?
Eu sou apresentadora do Bate-Bola e participo da definição dos temas, das reportagens e matérias de arquivo, dos textos. Não é essa a minha função, o programa tem um editor que é encarregado disso, mas o trabalho é bem coletivo, todo mundo do programa participa dessas decisões.  E o que é responsabilidade minha, mais exclusiva, é fazer as pautas das entrevistas e selecionar as mensagens dos assinantes, porque num programa ao vivo o apresentador acaba tendo de "editar ao vivo". Além disso eu sou do time de comentaristas da casa, então às vezes eu participo como comentarista de outros programas, e faço video-reportagens para o Social Clube, um programa que fala de projetos sociais ligados ao esporte.


5- Para você, qual seria seu jogador ideal no Brasil e no Exterior?
Um jogador ideal ? Difícil. Teria que ser um que juntasse qualidades de vários jogadores diferentes. Cada um tem o lá o seu ponto forte e a sua deficiência. Mas, hoje em dia, sinceramente, eu gosto muito do Kaká. É claro que eu acho o Robinho o máximo, mas o Kaká, além de estar um pouquinho mais rodado, um pouquinho mais amadurecido (ele tem lá os seus dias ruins, mas eu acho que já são menos freqüentes por causa desse amadurecimento), jogando mais no meio campo (o Robinho joga mais lá na frente) ele tem mais capacidade de mudar um jogo, de mudar a maneira de um time jogar. Eu só estou falando nele porque eu tenho que escolher um só, porque escolher os dois seria sensacional. E sinceramente, pra mim, escolher um bom jogador no Brasil, equivale a escolher um bom jogador no mundo. Então hoje eu fico com eles mesmo.


6- Você é nascido em que cidade?
Nasci em São Paulo. No bairro de Santana, na Zona Norte.


7- Futebol Brasileiro no seu ponto de vista tende a mudar nos próximos anos?
Felizmente no ano passado ele passou por uma boa mudança no campo, com os times seguindo muitos caminhos diferentes. Um time como o São Caetano, por exemplo, foi super forte apostando num conjunto forte, numa tática muito estudada e treinada. O Santos foi campeão apostando na ousadia da garotada -- num conjunto forte também, claro, mas principalmente em talentos "fora do comum". Uns times apostam em jogadores mais experientes e também dá certo... O que eu acho legal é essa diversidade de caminhos, não é todo mundo seguindo o mesmo "padrãozinho", a mesma fórmula. Tem gente com três zagueiros, com dois, com dois pontas e um centroavante, com dois atacantes, essas coisas todas.

Fora do campo, até que tem havido mudanças interessantes, com alguns rebeldes aparecendo aqui e ali contra essa hegemonia da CBF e da Rede Globo. Quem sabe a gente consegue chacoalhar essa estrutura viciada e incompetente. Não que a Globo, por seu lado, seja incompetente, mas o fato de os clubes estarem na maior miséria e serem muito dependentes da televisão sujeita o futebol a condições bastante desfavoráveis.

8- Você acha bom o comando da CBF por Ricardo Teixeira?
Não, eu acho péssimo o comando do Ricardo Teixeira na CBF! O futebol brasileiro tem muitos problemas de desonestidade e desorganização (nessa ordem!). Tinha de ser o melhor futebol do mundo. Tinha de ser a "NBA" aqui, não a Europa. Um lugar onde todo mundo gostaria de jogar e que fosse visto no mundo inteiro, mas não é. Joga-se em campos horríveis, com calendário péssimo – se bem que pelo menos isso está melhorando. Mas as regras, os regulamentos, as tabelas mudam todo ano. Vêm os regionais, acabam os regionais. E é uma máfia mesmo,  uma tremenda troca de interesses e favores em função de vantagens financeiras e de interesses políticos, de ambição e de poder. O que a CBF está ameaçando fazer agora com o Atlético Mineiro – excluir o clube da Sul-Americana como represália por ter defendido os regionais – é um crime. O presidente da entidade é super ausente do cenário do futebol nacional (o presidente passou a maior parte do ano passado fora do Brasil), e só participa para defender os interesses dos seus apadrinhados. Ela não toma medidas enérgicas para corrigir alguns problemas de arbitragem, por exemplo. E o fim da picada, só pra coroar essa administração pavorosa: a CBF tem um patrocínio milionário, cobra uma fortuna por um amistoso da Seleção Brasileira, e teve um prejuízo de quatro milhões de reais ou coisa parecida. É o cúmulo. Se nem pra ganhar dinheiro os caras servem, não servem pra mais nada (já que o dinheiro é mais importante pra eles do que o esporte).

9- Um jogo inesquecível da sua vida?
Um jogo inesquecível ? Tem que ser um só mesmo ? Bem difícil né ? Mas vou escolher um do dia 1º de maio de noventa e quatro, foi o dia em que o Senna morreu. Palmeiras e São Paulo jogavam no Morumbi e eu estava na arquibancada. Era um dia lindo, ensolarado. As duas torcidas fizeram silêncio pelo Senna e depois o Morumbi inteiro cantando "Olê olê olá... Senna, Senna!" foi bem emocionante. E o jogo foi espetacular. O Palmeiras estava perdendo do São Paulo e ganhou de virada. O Luxemburgo foi muito xingado por ter tirado o Edmundo, e na verdade quem a torcida queria que saísse era o Rincón, que não estava fazendo porcaria nenhuma, aquela displicência típica dele no Palmeiras. E aí entrou o Maurílio no lugar do Edmundo, e ele participou das duas jogadas que resultaram nos dois gols da vitória do Palmeiras. Então, foram muitas coisas diferentes acontecendo num jogo só.


10- No seu ponto de vista, quais são os lados bons e ruins de Pelé e Maradona. E quem é o melhor?
Em relação ao que eles fizeram no campo é difícil pensar num lado ruim. Eu tenho objeções a alguns comportamentos fora de campo. Como por exemplo aquela imensa resistência do Pelé em assumir a paternidade da Sandra -- e depois quando ele assumiu a paternidade da outra filha, que é fisioterapeuta, lançou umas "farpas" do tipo: "Essa nunca me pediu nada...". Esse é um vacilo tremendo do ser humano Pelé, ou Edson, como ele gosta de dizer.

E claro que, do Maradona, não há como admirar o comportamento anti-social. Atirar em fotógrafo, isso não tem cabimento. O mal que ele faz a si mesmo  com cocaína dispensa comentários.

Quanto a quem é melhor, a gente tem de concordar que o Pelé foi "fora-de-série". O que ele fez ao longo do tempo não tem igual. Foram muitos anos no auge; foram três Copas do Mundo, foi o melhor time de uma década que ele ajudou a fazer. Agora. o Maradona é genial, rápido e habilidoso, então não precisa nem comparar eles dois. Que bom que existiram essas duas peças.


11- Depois de tanto tempo, o Santos mereceu esse título de 2002?
O Santos mereceu esse título em 2002, embora tenha se classificado em oitavo lugar, ali na bacia das almas, com a goleada do Gama sobre o Coritiba e coisa e tal. O Santos foi muito irregular durante o campeonato, mas os pontos altos foram muito bons, e ele foi ficando melhor no final. Tudo bem, perdeu pra Portuguesa e pra Ponte Preta em casa, perdeu pro São Caetano quando precisava ganhar, mas quando ele foi exigido depois disso ele respondeu, e de maneira sensacional. Contra o São Paulo, que estava um espetáculo, contra o Grêmio que sempre é forte, contra o Corinthians. Então mereceu e muito. E mereceu também porque conseguiu conquistar milhões de brasileiros que ficaram muito felizes com a vitória do Santos e esperançosos na vitalidade do nosso futebol.


12- Você concorda com o Paulo Vinicius ao dizer que o São Paulo FC não pode ser considerado o time de melhor plantel do Brasil por não ter reservas à altura dos titulares?
Concordo que o São Paulo não tem um grande banco, mas como nos outros times a situação não é muito diferente, então ele acaba sendo um dos melhores elencos assim mesmo... Mas eu acho que agora a gente tem que dizer que o Santos tem o melhor plantel, porque – eu já disse isso no final do Campeonato Brasileiro do ano passado, nas quartas de final – o São Paulo tem deficiência em alguns setores, "ah, as laterais não desequilibram...", "a zaga não dá confiança", e o Santos não tem setor fraco. É um espetáculo. Ainda mais agora com o Ricardo Oliveira -- o Alberto foi muito bem, e no lugar dele entrou o Ricardo Oliveira, que é ótimo! Então o melhor elenco hoje é o Santos.


13- Qual Copa do Mundo para você foi inesquecível?
Ah, a Copa inesquecível foi a de 82, não tenho dúvida nenhuma. Era aquela alegria de ver o Brasil jogar, um orgulho. Mesmo passando um "medinho", tendo uns sobressaltos, a gente sabia que no final ia arrasar. Foi a melhor. E a maior tristeza também! Nunca mais acreditei tanto em um time ou seleção... Credo, a decepção foi muito doída. A de 94 também foi legal, não foi nem pelo título, mas pelas condições em que eu assisti. Eu estava em Itacaré, mal tinha luz elétrica na cidade e a gente assistiu os jogos numa pracinha, num aparelho de tv público. Foi sensacional.


14- Comente para nós um gol que marcou sua vida como jornalista esportivo?
Vou falar de um gol no sentido literal -- acho que pode ser aquele chapéu do Alex nos 4 a 2 do Palmeiras no São Paulo no ano passado. Foi muito legal ver que ia ser gol, ver aquilo acontecendo. Muito bom! Se for para usar gol como metáfora de algo que eu fiz de bom, não sei... Às vezes fico bem feliz com uma coluna na Folha, uma participação em uma transmissão  ou em uma mesa-redonda, também fico contente quando falo algo com que ninguém concorda e que depois acontece de verdade... Por exemplo, quando apostei que o Parreira era tudo o que o Corinthians precisava naquele momento conturbado...


15- Você antes da ESPN chegou a trabalhar onde?
Antes da ESPN eu trabalhei na MTV por quase dez anos, na TV Cultura por um ano e meio, e antes de trabalhar em televisão eu dei aula de inglês na Cultura Inglesa e era professora de inglês em algumas empresas também. E antes ainda eu trabalhei em escolinha de educação infantil, fui secretária no estúdio de um fotógrafo e fui recepcionista em "Salão do Automóvel" e eventos assim. Já trabalhei muito! (risos)


16- Chico Lang (Corintiano), Avalone (Palmeirense), Milton Neves (Santista) e muitos outros. Você sabe separar sua vida como jornalista e sua vida como torcedora?
Sei perfeitamente separar a vida como jornalista e a vida de torcedora. Não tem a menor comparação você assistir um jogo na cabine tendo de comentar os dois times e você estar na arquibancada se esgoelando, que é uma coisa que eu ainda faço. Eu não quero saber, se eu estou de folga estou vendo o jogo por gosto; eu quero torcer, quero ir pra "bancada". Mas, por outro lado, é claro que eu sou a mesma pessoa. Na hora de lembrar de um gol ali na pergunta 14, eu lembrei do gol do meu time... A verdade é que a gente é mais crítico em relação ao próprio time – embora o leitor ou ouvinte ache que é o contrário; que o time que a gente elogia mais é aquele para o qual torce...


17- Você acha que Ronaldinho, o Fenômeno, ainda terá muitas surpresas?
Eu acho que tudo é possível em relação ao Ronaldo! Dá para acreditar em qualquer coisa.


18- O que você achou do estilo Pontos Corridos no Brasileiro de 2003?
Acho uma ótima tentativa, a gente tem de tentar. Não é que os pontos corridos sejam a garantia de que o futebol que a gente mais gosta de ver, ou "o melhor futebol" seja o campeão. Porque o campeão pode ser o futebol mais chato, aquele time mais regular e estável e ao mesmo tempo feioso de se ver jogar. Mas mesmo assim, eu acho que campeonato é assim que tem de ser, joga todo mundo contra todo mundo, uma vez em casa, uma vez fora, o melhor ganha; o que mais pontuar ganha.

19- Mustafá Contursi será um bom presidente para o Palmeiras nesta crise?
Não, é claro que ele não será um bom presidente para o Palmeiras. Um time que teve tudo o que o Palmeiras teve nos anos 90 cair tanto e tão rapidamente só pode ser um erro de administração. Mesmo quem não conhece os problemas, os detalhes dos erros da administração do Mustafá, pode ver muito bem de fora. Um time que teve tudo o que o Palmeiras teve de apoio e de dinheiro da Parmalat e hoje em dia é essa pobreza toda, só pode ser um clube mal administrado.


20- A Copa SP de Juniores é uma grande vitrine para os jovens futebolistas. Você acha que este campeonato é uma vitrine para a violência nos estádios?
Não, eu me recuso a chamar qualquer coisa de vitrine para a violência. Ele está sujeito à violência como tudo na nossa sociedade. A nossa sociedade tem uma cultura da violência, e o futebol está sendo um palco fácil para que ela se manifeste, infelizmente.


21- As torcidas organizadas devem ser banidas do Futebol?
Sinceramente, é impossível banir as torcidas organizadas do futebol. Você nunca vai conseguir impedir as pessoas de se encontrarem, se reunirem, irem juntos para o estádio, sentarem uma do lado da outra, e cantarem as mesmas músicas. Você pode proibir a organização formal, caçar o nome, a licença, o direito de ter uma sede, mas as pessoas podem continuar se reunindo e se organizando informalmente. Eu prefiro tentar conquistar as torcidas organizadas, aproveitar a coesão delas, a influência dos líderes, pra transformar a situação das arquibancadas.


22- O que você achou do site FutebolNews.com?

Adorei, é muito rico, repleto de informações importantes. Vou recomendar no meu site na AOL...

Cara Soninha, gostaríamos de agradecer pela sua compreensão de ser
entrevistada. Esperamos que sua vida continue sendo iluminada.
Muito Obrigado!!

 

Entrevista realizada dia 15/2
Grégori Maraccini (FutebolNews.com)

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